REVISTA DA UFG - Tema MELHOR IDADE
Órgão de divulgação da Universidade Federal de Goiás - Ano V, No. 2, dezembro de 2003

GOYAZ, M. - Vida ativa na melhor idade. Revista da UFG, Vol. 5, No. 2, dez 2003 on line (www.proec.ufg.br)

VIDA ATIVA NA MELHOR IDADE
Marília de Goyaz1
   

 RESUMO: Este estudo aborda a importância das atividades físicas, recreativas e de lazer para a qualidade de vida na terceira idade, aponta as transformações que ocorrem com o processo de envelhecimento e algumas possibilidades de se buscar o equilíbrio entre as potencialidades e as limitações do idoso, por meio de uma vida mais ativa. Destacamos ainda,  o envolvimento da  Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás (FEF/UFG) com as questões que dizem respeito a esse grupo social, que sofre as conseqüências das discriminações impostas por grande parte da sociedade, que não valoriza a pessoa idosa.
Palavras-chave: idoso, atividade física e qualidade de vida.

Nas sociedades orientais, o idoso é valorizado pela sua sabedoria e pelo acúmulo de conhecimentos que detém. Essa concepção prevaleceu por algum tempo também em algumas sociedades ocidentais mais antigas. Na atualidade, os idosos passam por inúmeras situações de descaso e, até mesmo, desprezo culminando com a exclusão social dos mesmos, por serem considerados improdutivos por uma grande parcela da sociedade. Não é raro encontrarmos idosos ignorados e/ou abandonados no próprio seio familiar.

A população de idosos vem crescendo e a concepção equivocada de que a velhice é um período de decadência física e mental -  o idoso completamente dependente e improdutivo e causa transtornos tanto para a família como para os que o cercam - tem prejudicado o seu convívio social, limitando ainda mais suas possibilidades de ação na busca de uma vida digna.

Sabemos que, com o processo de envelhecimento, ocorrem mudanças fisiológicas (WEINECK,1991), psicológicas e sociais que influenciam o comportamento do idoso. Há um declínio gradual das aptidões físicas, surgem alguns distúrbios orgânicos, o corpo sofre modificações, tais como: aparecimento de rugas, embranquecimento dos cabelos, diminuição das capacidades auditiva e visual e lentidão no andar

Esse processo é biologicamente normal e evolui, progressivamente, não se dá, necessariamente, em paralelo ao avanço da idade cronológica. Pode ocorrer variação individual e prevalência sobre o envelhecimento cronológico. Com isso, o idoso tende a modificar seus hábitos de vida e rotinas diárias passando a ocupar-se de atividades pouco ativas e, assim, reduzir seu desempenho físico, suas habilidades motoras, sua capacidade de concentração, de reação e de coordenação. Esses efeitos da diminuição do desempenho físico acabam dificultando a realização das atividades diárias e a manutenção de um estilo de vida saudável, gera apatia, auto desvalorização, insegurança e, conseqüentemente, leva o idoso ao isolamento social e à solidão.

Além dessas alterações, que ocorrem em vários níveis, MATSUDO E MATSUDO (1992) apontam outras mudanças no processo de envelhecimento:

É, extremamente, importante propiciar situações em que o idoso aprenda a lidar com as transformações que ocorrem no seu corpo, tirando proveito da sua condição, conquistando sua autonomia, sentindo-se sujeito da sua própria história. No entanto, nem sempre a família está preparada ou em condições de desencadear esse processo, tendo em vista que as obrigações diárias, às vezes, dificultam uma dedicação especial ao idoso. Assim, há a possibilidade da família recorrer a profissionais especializados para desenvolverem projetos direcionados ao idoso, buscando garantir ao mesmo o direito à qualidade de vida almejada  e merecida.

A sociedade, portanto, tem o dever de criar mecanismos que contribuam para a superação deste quadro e garantir ao idoso uma vida mais tranqüila. Para isso, além de vencer os preconceitos, é necessário criar condições para que o idoso possa usufruir do tempo que tem disponível com qualidade, beneficiando-se por meio de: atividades físicas apropriadas para sua condição, alimentação saudável, espaço para lazer, bom relacionamento social e liberdade de expressão e criação. Somados a isso, o amor, o carinho e o reconhecimento das  contribuições do idoso para a sociedade e da sua capacidade de amar, podem impulsionar a felicidade, o bem estar e, conseqüentemente, a longevidade desse cidadão que tem  direitos pessoais e sociais que não podem ser negados.

Várias pesquisas têm demonstrado que a participação em atividades físicas regulares e recreativas e de lazer são fundamentais para um bom desempenho físico do idoso(LEITE,1990; YASBEK e BATISTELLA,1994; FEDERIGHI,1995; MATSUDO MATSUDO,1992). Estas geram autoconfiança, satisfação e bem estar, incluindo-o socialmente a partir de mudanças no seu estilo de vida. Para isso, deve-se levar em conta que o equilíbrio entre as limitações e potencialidades do idoso contribuem para que o mesmo lide com as inevitáveis perdas decorrentes do processo de envelhecimento.

As atividades direcionadas ao idoso devem ser organizadas considerando as suas particularidades e realizadas de forma gradual. Elas também devem promover a aproximação social, ter caráter lúdico, com intensidade moderada e de baixo impacto, ser diversificadas; considerar a memória e o conhecimento acumulado pelo idoso para que o mesmo possa partilhar e reviver situações que lhe dão prazer.    

Um estilo de vida ativo traz efeitos benéficos para a manutenção da capacidade funcional e da autonomia física durante o processo de envelhecimento. Além de melhorar a capacidade cárdio-respiratória, a atividade física bem orientada contribui para:

No entanto, antes de iniciar qualquer tipo de exercício é importante que o idoso seja submetido a uma avaliação médica cuidadosa, a fimde que seja feita a prescrição de um programa de atividades físicas que leve em conta suas possibilidades e limitações. Esse programa deve estar diretamente relacionado com as modificações mais importantes que ocorrem durante o processo de envelhecimento, proporciona benefícios em relação às capacidades motoras que apoiam a realização das atividades do cotidiano e favorece a capacidade de trabalho e de lazer bem como altera a taxa de declínio do estado funcional, visando à melhoria da qualidade de vida do idoso.

Neste sentido, a Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás tem exercido seu papel junto à sociedade, atuando no ensino pesquisa e extensão, observando o princípio da indissociabilidade. E, nestes três campos, a "Terceira idade" tem sido alvo de atenção, em que se permea as reflexões desencadeadas nesta unidade e as suas ações.

No ensino, este tema é tratado, de maneira especial, na disciplina Ginástica II, como um dos componentes curriculares, que visa a  compreender o idoso em toda a sua dimensão: orgânica/biológica, social, cognitiva e em outras áreas, a fim de contribuir pela via das atividades físicas e recreativas no auxílio de suas necessidades. Também na disciplina Aprofundamento em Educação Física Popular, por meio de pesquisas vinculadas a trabalhos monográficos de final de curso, este tema tem sido amplamente discutido.

Muitos desses trabalhos tiveram origem nos projetos de extensão realizados pela FEF/UFG com a participação de alunos que atuam como monitores dos mesmos. Faz parte da política de extensão desta unidade acadêmica vincular os projetos de extensão a grupos de estudos sobre os temas trabalhados, gerando pesquisas.

Durante três anos, o projeto "Terceira idade em atividade" ofereceu atividades físicas esportivas e culturais para os idosos da comunidade, o que possibilitou aos alunos a vivência na prática dos conhecimentos disseminados na FEF/UFG. O projeto "Qualidade de vida na Terceira Idade" desenvolveu um programa de atividades físicas, sociais e culturais, visando a melhoria da auto-estima e do auto conceito dos idosos envolvidos.

A Faculdade de Educação Física participou ainda no projeto da UFG, "Começar de novo", atuando na área da dança e proferindo palestras sobre a importância da atividade física na terceira idade. Não só nas aulas, como nas apresentações que faziam, era visível a satisfação dos participantes.

Diante desses dados, fica evidente o compromisso da FEF/UFG de contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população idosa, por meio das atividades de ensino, de pesquisa e de extensão.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEDERIGHI, Álvaro J. Exercício físico no idoso. Âmbito Medicina Desportiva. São Paulo, v. 03. P. 41-42, 1995

LEITE, Paulo Fernando. Aptidão física, esporte e saúde: prevenção e reabilitação. 2. ed. São Paulo: Robe, 1990.

MATSUDO, Sandra M. e MATSUDO, Vitor K. R. Prescrição de exercícios e benefícios da atividade física na terceira idade. Revista Brasileira de Ciências e Movimento. São Caetano do Sul, v. 05, n. 04, p. 19-30, 1992.

WEINECK, J. Biologia do esporte. São Paulo: Manole, 1991.

YAZBEK JÚNIOR, Paulo e BASTTISTELLA, Linamara Rizzo. Condicionamento físico: do atleta ao transplantado. São Paulo: Sarvier,1994.


1 Professora da Faculdade de Educação Física da Universidade Federal de Goiás.