REVISTA DA UFG - Tema MELHOR IDADE
Órgão de divulgação da Universidade Federal de Goiás - Ano V, No. 2, dezembro de 2003

SILVA, I. N. T.; LINDOLPHO, M. C.; DUTRA, P. A. P.; SÁ, S.P.C. - O enfermeiro e o paciente idoso em terapêutica plurimedicamentosa. Revista da UFG, Vol. 5, No. 2, dez 2003 on line (www.proec.ufg.br)

O ENFERMEIRO E O PACIENTE IDOSO EM TERAPÊUTICA  PLURIMEDICAMENTOSA
Isis Navega T. da Silva1, Miriam da Costa Lindolpho2, Pablo Alves Pereira Dutra3, Selma Petra Chaves Sá4
   

 RESUMO

O objeto deste trabalho é a polimedicação em idosos e as dificuldades encontradas pelos mesmos na administração de diversas medicações. O objetivo foi conhecer esta problemática e apontar ações que visem minimizar as iatrogenias medicamentosas em  idosos. O estudo foi desenvolvido com uma abordagem quantitativa, sendo a coleta de dados realizada através de entrevista estruturada a 20 idosos que participam de projeto de extensão universitário na cidade de Niterói – Rio de Janeiro. Os dados foram apresentados através de gráficos e tabelas onde se observou um alto uso das medicações e algumas dificuldades no gerenciamento das medicações pelo idoso e pouco conhecimento a respeito dos seus medicamentos. Concluí-se que os idosos possuem poucas informações a respeito de suas medicações e que ações educativas de enfermagem podem minimizar as complicações advindas da polimedicação feita por idosos.
Palavras-chaves: Idoso; Polimedicação; Enfermeiro.

INTRODUÇÃO

Este trabalho tem como objeto de estudo a polifarmacologia utilizada no idoso e as dificuldades encontradas pelos mesmos para o seu controle.

De acordo com o envelhecimento, freqüentemente o Homem passa a ter um contato mais freqüente com os profissionais da área da saúde. Não é raro começarmos a preocupação com a saúde somente após os 40 anos, momentos em que, geralmente surgem alguns desequilíbrios no organismo humano. Sabemos ainda que a população idosa tende a crescer, conseqüentemente o aumento das doenças crônicas degenerativas que são mais encontradas a partir dos 60 anos de idade. Tal fato nos leva a pensar no possível aumento do índice de internações de pessoas idosas e também o possível aumento do número de medicações utilizadas pelos gerontes a nível ambulatorial.

Em Reichel (2001, p.49) ressalta que estudos vem apontando que as admissões de pacientes adultos foram observadas prospectivamente para reações adversas aos medicamentos. O mesmo autor continua afirmando que 19% de todas as admissões clínicas não eletivas  de pacientes acima de 50 anos foram associadas a não adesão intencional ao esquema terapêutico, fracasso no tratamento ou erro na utilização das medicações.

A polifarmacologia pode trazer riscos para a saúde do idoso, visto a possibilidade de ocorrência de iatrogenias. Na hospitalização, o controle na administração é realizado pela equipe de enfermagem e entretanto, as dificuldades encontram-se no seu lar, quando o próprio idoso realiza o controle de suas medicações. Além da dificuldade em gerenciar as suas medicações, o uso de inúmeros medicamentos por si próprio é um fator de risco para o idoso, podendo levar a sua hospitalização como já comprovado em pesquisas.

Com o estudo, pretendemos fazer emergir a importância educacional dos profissionais de saúde, em particular do enfermeiro no que diz respeito à administração de medicação ao paciente idoso, permitindo desta forma que estratégias venham ser discutidas sobre essas questões e uma participação mais efetiva daqueles que cuidam, seja implementada para diminuir os iatrogenias decorrentes da terapêutica plurimedicamentosa.

O que se observa nas rotinas clínicas, ambulatoriais dentre outras, são pacientes idosos que recebem cada vez mais um número maior de medicamentos e pouca interatividade por parte dos profissionais de saúde na questão da informação a respeito das medicações.

Diante desta realidade que notamos a possibilidade do enfermeiro se tornar participante do processo de educação e saúde, orientando os idosos quanto à administração de medicação, amenizando assim as complicações de correntes do uso inadequado de medicamentos. Segundo Guimarães Gomes (1989) “10% dos pacientes adultos desenvolvem algum tipo de reação às drogas; após 80 anos esta possibilidade chega a 25%.

Segundo Brunner (Apud Papaléo Netto, 1996, p.231) “um estudo demonstrou que 59% dos idosos com doenças crônicas cometiam erros na utilização das prescrições”. Assim, os idosos continuam uma parcela considerável da nossa sociedade e com expectativas de se tornarem cada vez mais numerosos nas próximas décadas, com probabilidade de utilização de diversas medicações.

Assim, este estudo teve como objetivos: levantar n° de medicamentos utilizados pelos idosos, relacionar as medicações mais comumente usadas pelos idosos, identificar os problemas encontrados pelos idosos em relação à administração dos seus medicamentos, apontar ações de Enfermagem para assistir ao idoso submetido à terapêutica plurimedicamentosa.

Para tal, optamos pela abordagem quantitativa, onde realizou-se  uma entrevista estruturada , sendo que as questões formuladas procuraram atender aos objetivos da pesquisa. A entrevista contou basicamente com as seguintes questões: idade, escolaridade; medicações utilizadas, e dificuldades encontradas na administração de suas medicaçõesmedicamentos.

Os sujeitos da pesquisa foram 20 (vinte) idosos com idade entre 65 e 85 anos que auto-administram seus medicamentos e que são atendidos no EPIGG/UFF (Enfermagem no Programa de Geriatria e Gerontologia da UFF), sendo realizada a entrevista durante à Consulta de Enfermagem aos idosos do serviço.

A Polifarmacologia em Idosos- Os resultados

O grupo estudado consome 75 medicações, uma média de 3,75 medicações por pacientes. Vale resultar que 3 idosos da amostra utilizam apenas um medicamento e outros 17 todos utilizam acima de 3 medicações diferentes. É importante compreendermos este esquema terapêutico no idoso para que  possamos prestar assistência qualificada.

As drogas que agem sobre o sistema cardiocirculatório ganharam destaque por serem responsáveis por 49% de todos os medicamentos consumidos pelo grupo. Para Brunner (2002, p.144) “A doença cardíaca é uma causa importante de morte no idoso. As válvulas cardíacas tornam-se mais espessas e rígidas, e o músculo cardíaco e as artérias sua elasticidade”. E diz ainda que essa disfunção cardiovascular pode manifestar-se como: arritmias, insuficiência cardíaca, coronariopatias, arteriosclerose, hipertensão, infarto do miocárdio, doenças vasculares periféricas e acidentes vasculares cerebrais. O crescimento da Hipertensão Arterial Sistêmica com a idade, atingi 50% dos indivíduos com mais de 65 anos, além das alterações cardíacas próprias do envelhecimento.

            Outros grupos de medicamentos que merecem destaque neste estudo foram os antidepressivos e os ansiolíticos que ocupam a segunda posição na escala de consumo pelos idosos entrevistados com 12% dos medicamentos consumidos. Brunner (2002, p. 149) define que a depressão consiste no distúrbio afetivo ou humor  comum em idosos em determinado momento momento de suas vidas por causas diversas .Os sinais incluem sentimento de tristeza, fadiga, diminuição da concentração e da memória, sentimento de culpa ou inutilidade, distúrbio do sono, da grafia, perda ou ganho de peso excessivo, agitação e pensamento suicídio. Como pode-se ver mais uma problemática que merece intervenção medicamentosa sendo mais um fármaco para ser consumido pelos idosos.

Está mais do que comprovado que a dor acomete mais pacientes idosos. Acredita-se que 85% dos acidentes em asilos ocorrem com presença de dor, o que contribui para os problemas de depressão, distúrbio do sono, reabilitação retardada, desnutrição e disfunção cognitiva. Assim, mais uma medicação possível se ser utilizada com freqüência neste período.

            Complicações como a catarata, glaucoma, processos retinianos degenerativos, podem surgir com a senilidade e conseqüentemente acarretam consumo das drogas relacionadas com  tais processos patológicos.

As alterações ocorridas nos sistemas entre eles o gastrintestinal também é um problema que acomete o grupo de idosos pesquisados. Bruner (2002, p.147) comenta que as principais queixas concentram-se, freqüentemente, em sensações de plenitude, pirose e indigestão e como conseqüência, o uso prolongado de laxativos.

             De acordo com o gráfico abaixo,  o entendimento da prescrição medicamentosa constitui um problema de relevância pois, além da dificuldade na compreensão mencionada pelos mesmos, tal fato tem como conseqüência  as iatrogenias ou não prosseguimento do tratamento .

            Foi observado que a maioria do grupo, dezoito pacientes, afirmaram ter conhecimento das indicações terapêuticas dos medicamentos que utilizamn no entanto expressavam  a seguinte afirmativa quando eram  interrogados: “ é bom para pressão” , “afina o sangue” ,  “para diabetes”. Tais afirmativas convergem para o pouco esclarecimento a respeito da terapêutica medicamentosa.

Dois (2)  idosos desconhecem as indicações terapêutica dos medicamentos utilizados e disseram apenas cumprirem “ordem médica” na administração dos fármacos. Isso se deve em parte a questão cultural, onde muitos de nossa sociedade percebem o médico como o profissional de saúde com maior poder de decisão  sobre seu tratamento.

Quanto ao conhecimento da dosagem a ser administrada houve unanimidade na afirmação de que conhecem a frequência no entanto, apenas cinco (5) idosos confirmaram a dosagem em miligrama (mg), outros quinze (15) em comprimidos, o que nos leva a pensar em doses excessivas ou subdoses, haja vista que o mesmo medicamento pode apresentar concentração diferente de acordo com a opção de compra.

            È importante considerarmos que a dosagem é um dos fatores fundamentais para o alcance  dos efeitos terapêuticos mas que também pode levar a complicações em virtude  das alterações que ocorrem no metabolismo das drogas com o envelhecimento, a capacidade reduzida do fígado  e dos rins para metabolizar e excretar os medicamentos e os níveis diminuídos da eficiência circulatória. ( Brunner,2002,p.157 ). Torna-se imprescindível o conhecimento da dosagem precisa da medicação, sendo importante para o idoso o acompanhamento do enfermeiro após a aquisição do fármaco pelo mesmo.

Administração de medicamento o idoso no horário certo

Quatorze (14) idosos afirmaram administrar seus medicamentos no horário estabelecido pela prescrição médica enquanto seis (6) disseram não lembrar de tomar no horário preconizado. O horário deve ser respeitado para que a medicação atinja os níveis terapêuticos na corrente sanguínea e conseqüentemente o objetivo seja alcançado. É sempre benéfico para o idoso a padronização do horário em função de criar um hábito na mente do paciente, haja vista que, as funções cognitivas podem se alterar nos gerontes.

Prática da automedicação

Onze (11) idosos afirmaram fazer automedicação, principalmente de analgésicos e drogas ativas do trato gastrintestinal sendo os laxantes e antiácidos os mais comuns. Essa prática carece de uma vigilância em função das alterações nos sistemas, surgimento de doenças crônicas, risco de interações medicamentosas, sinergismo, uma vez que pacientes idosos sempre utilizam um esquema terapêutico com mais de duas ou três medicações.

Verificação da data de validade

Dezenove (19) idosos confirmaram verificar a data de validade das medicações antes de serem consumidas, o que deve ser estimulado haja vista, que o vencimento do prazo de validade altera a composição química das substâncias podendo o que outrora era terapêutico se tornar tóxico.

Conhecimento sobre os efeitos colaterais

            Do grupo entrevistado, 17 (dezessete) idosos afirmaram não conhecer os efeitos colaterais das drogas que consomem e 100% desconhecem as reações adversas e as interações entre os medicamentos. Na prática essa é uma questão bastante complexa, pois além das inúmeras possibilidades de interferência entre as drogas, devemos avaliar outros fatores relacionados aos indivíduos entre eles a idade (Secolli, 2000).         

Dificuldade na aquisição de medicamentos

            Doze (19) idosos afirmaram ter alguma dificuldade na aquisição dos medicamentos, quando estes dependem do serviço público, que muitas vezes por trâmites burocráticos dificultam o acesso dos idoso ao serviço de saúde, garantido na Constituição Federal. Somado a isso, em função da aposentadoria, muitos se sentem improdutivos para continuar trabalhando, em razão do que é imposto pela sociedade, tornando seu salário   atual inferior ao da ativa. Estes e outros fatos nos levaria a pensar em subdose das medicações no tratamento em função de “economizar para não faltar” segundo relataram alguns idosos.

            Quando interrogados sobre alguma outra dificuldade, apenas um idoso confirmou tê-la, dizendo se sentir inseguro para gerenciar e auto administrar seus medicamentos.

     O olhar do enfermeiro e a administração de medicamentos no idoso

O enfermeiro é o responsável pela prestação do cuidado, por estar imbuído no contexto assistencial, que deve transcender todas as barreiras, pelo compromisso assumido com a profissão.

             O cuidado prestado pelo enfermeiro, no que visa o bem estar do cliente não deve ter limites. Segundo Leopard  (1999, p. 204) “cuidar traduz a essência da enfermagem, envolve uma interação em que a dinâmica da comunicação se processa a medida que o enfermeiro se relaciona com seus clientes”.

            Em se tratando dos idosos submetidos a plurimedicação, o cuidado e as orientações se justificam pelo fato de muitos auto-administrarem seus medicamentos. Potter  (1998, p. 557) chama a atenção para a responsabilidade do enfermeiro quando diz “o papel do profissional de enfermagem é principalmente de ensinar, auxiliando os pacientes idosos em terapia medicamentosa”. Para tal prática, ainda afirma que o profissional deve conhecer as alterações no organismo do idoso para “considerar os níveis de função física, sensorial e cognitiva do paciente quando instruí-lo a tomar, comprar e usar medicamentos corretamente”.

            No processo de orientação para adesão do paciente idoso ao esquema terapêutico, o enfermeiro deve considerar  as variáveis que podem interferir direta ou indiretamente nesse contexto.

Segundo Potter (2002), a enfermeira deve: conhecer o efeito terapêutico dos medicamentos prescrito; manter o bem estar e a segurança do paciente; instruir os pacientes e familiares quanto à terapia medicamentosa.; preparar os pacientes para auto-administração dos medicamentos e retirar todas as dúvidas sobre o assunto e detectar qualquer problema no que se refere a terapêutica medicamentosa em idosos na internação, durante a mesma, na alta e se possível realizar visitas domiciliares e consultas de enfermagem para acompanhamento do idoso.

CONCLUSÃO

             Concluímos, a partir do estudo, qual mostrou que os idosos por vezes necessitam de um esquema plurimedicamentoso devido a diversas patologias que mais acometem os idosos, sendo necessário durante a consulta de enfermagem, uma abordagem sobre as diversas categorias do assunto . Questões como: o que é, o que provoca, as medicações mais utilizadas, seus efeitos, as consequências das doenças quando não controladas, a importância da seqüência do esquema terapêutico proposto devem ser esclarecidas  e  o encaminhamento para que possa ser assistido pela equipe multidisciplinar, também se f az necessário.

            Enfim, dificuldades encontradas como o uso por vezes inadequado, diminuição da dose da medicação, a automedicação praticada por parte dos idosos principalmente por medicações analgésicas e laxativas e o desconhecimento sobre os medicamentos utilizados propões aos profissionais de enfermagem  traçarem planos com ações educativas. Estas devem se basear em uma relação dialogal onde o aprendizado, inclua a oportunidade ótima e propícia de acontecer no cotidiano, nas Consultas de Enfermagem, na alta hospitalar e nas visitas domiciliares. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRUNNER & SUDDARTH. Tratado de Enfermagem Médico Cirúrgico. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara Koogan, 2002.

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GOODMAN E GILMAN, et al. As Bases Farmacológicas da Terapêutica. 9 Ed.  Rio de Janeiro: McGraw Hill, 1996.

LEOPARD, M. T. Entre a Moral e a Técnica: Ambigüidades dos cuidados de enfermagem. Florianópolis: editora da UFSC, 1994.

PAPALÉO NETTO, M. Gerontologia. São Paulo: Atheneu, 1996.

POTEER, P. & PERRY, A . G. Fundamentos de Enfermagem. 4ª Ed. Rio de Janeiro: Ed. Guanabara Koogan, 1999.

SECOLI, S. R. Interações Medicamentosas: Fundamentos para a prática clínica da enfermagem. R. Esc. Enferm. USP, São Paulo, v. 35, n. 1, p. 28-34, mar. 2001.


1 Acadêmica do 6°º período da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (EEAA/UFF), bolsista do EPIGG- UFF ( Projeto de Extensão “Enfermagem no Programa Interdisciplinar de Geriatria e Gerontologia da UFF. RJ

2 Mestre em Enfermagem.Professor  Assistente do MFE (Departamento de Fundamentos de Enfermagem e Administração  da EEAAC/UFF e Vice - coordenadora do Projeto de Extensão EPIGG-UFF. RJ

3 Acadêmico do 8°º período da Escola de Enfermagem Aurora de Afonso Costa da Universidade Federal Fluminense (EEAA/UFF). RJ.

4 Mestre em Enfermagem.Professor Assistente do MFE (Departamento de Fundamentos de Enfermagem e Administração  da EEAAC e Coordenadora do Projeto de Extensão EPIGG-UFF.  Rua Cinco de Julho 322/602- Icaraí- Niterói. RJ CEP. 22.220.110.