REVISTA DA UFG - Tema BRASIL RURAL
Órgão de divulgação da Universidade Federal de Goiás - Ano VII, No. 1, junho de 2005

SOUZA, J. R. - O homem e a sua linguagem no conto “a enxada”. Revista da UFG, Vol. 7, No. 01, junho 2004 on line (www.proec.ufg.br)

O HOMEM E A SUA LINGUAGEM NO CONTO “A ENXADA”
Jacqueline Ribeiro de Souza¹
   

RESUMO: A pesquisa, descrita em sua gênese, motivação inicial e percurso, visou apresentar o homem a partir de sua linguagem. Seguindo o tema “Brasil Rural”, analisamos o conto “A Enxada”, que tem o sertão goiano como cenário, com o objetivo de mostrar como a linguagem está relacionada à representação do homem.
Palavras-chave: homem; linguagem; rural.

“A construção do conto fundamentada na representação de uma disparidade social entre o poderoso e o submisso, portanto calcada na diferença de classe que sustenta também as disparidades sociais do capitalismo industrializado dos grandes centros urbanos, traz, no seu bojo, um quadro social típico da realidade goiana rural”. (GOTLIB, 1984:42)

            O trecho acima descreve muito bem a relação de exploração recorrente no meio rural. Analisaremos dentro desse enfoque o homem e sua linguagem no conto “A enxada”, de Bernardo Élis, em que o cenário é o sertão goiano.

            O conto “A enxada” é uma obra regionalista, que tem como tema a exploração laboral de um grande proprietário de terra em relação a um pobre lavrador.

            O escritor goiano retrata o jugo e destino infeliz do povo que vive em condições subumanas e trabalha de forma escrava. A obra objetivista é fundamentada na diferença social, apresentando costumes, supertições, linguagem tipicamente rural, que dão um aspecto documentarista ao conto.

            O enredo se desenvolve em torno da busca por uma enxada. O lavrador Supriano - Piano - tem que prestar serviço ao Capitão Elpídio Chaveiro que lhe impõe data para entrega da plantação, mas não lhe fornece o instrumento de trabalho – a enxada.

            Piano, homem transformado em objeto, é utilizado no pagamento de uma dívida. O delegado paga ao Capitão Elpídio, oferecendo a mão-de-obra de Piano que antes lhe devia favores. Dessa forma, Piano passa a ser propriedade do capitão. Deve ser submisso àquele que o trata como escravo.

            Bernardo Élis discute os problemas sociais ocorridos no meio rural goiano, apontando não só aspectos regionais, mas também abordando temas de caráter universal. Antônio Hohlfeldt descreve de forma precisa os temas abordados pelo autor:

“...Bernardo Élis se aprofunda na crítica social, nas condições de violência, na exploração latifundiária, que caracterizam o desenvolvimento social e econômico das províncias brasileiras ainda hoje, fato facilmente verificável nas manchetes dos jornais. Num espaço tipo fim-de-mundo, esquecidas, marginalizadas, as criaturas de Bernardo Élis lutam e reivindicam por sua condição humana, ainda que restritas num círculo fechado de regras próprias, ética e moralmente diferenciadas do universo urbano e tecnológico, onde o tempo é um escorrer sem sentido, contínuo, infinito, com a mais absoluta estratificação das relações humanas, quase sempre animalizadas.” (HOHLFELDT,1990:25)

            A obra é marcada por uma linguagem própria, regional, típica do meio rural. Antonio Candido (1972) destaca como as obras do regionalismo brasileiro estão cheias de realidade documentarista e pode apresentar uma função humanizadora ou desumanizadora, dependendo de como o autor faz uso da linguagem. O sentido desumano está presente quando o escritor estabelece diferenças na forma de falar, reserva ao personagem campestre a fala coloquial, apresentando a linguagem e aspecto fônico rústico, já o narrador, pessoa de nível superior, geralmente não tem sotaque e fala de acordo a norma culta. Já a representação humanizadora é possível quando não são impostas essas diferenças:

“Esta visão se traduz pelo encontro de uma solução lingüística adequada; e dependendo dela é que o regionalismo pode ter um sentido humanizador ou um sentido retificador. Dito de outro modo: pode funcionar como representação humanizada ou como representação desumanizada do homem das culturas rurais.” (CANDIDO: 1972:808)

            Na obra de Bernardo Élis percebemos uma função humanizadora da linguagem, pois não há distinções entre a fala de Piano, lavrador, classe pobre, e a do Capitão Elpídio, latifundiário, classe rica. E mesmo o narrador, possuidor de uma linguagem mais erudita, em alguns momentos, faz uso do vocabulário regional, estando assim, próximo das personagens e do leitor.

            Com relação ao coloquialismo presente na narrativa, Bella Josef (1990:32) diz que ao utilizar a fala coloquial o “contista rompe com os estereótipos impostos por essa linguagem “literária” tradicional, castradora e hierarquizadora”, estabelecendo assim, a proximidade da obra com o leitor.

            Nesse primeiro momento discutimos a linguagem autor-leitor, como o autor utiliza a linguagem para se aproximar, ou não do leitor. A partir de agora, abordaremos a possível relação entre a linguagem e a representação das personagens.

            Através da linguagem da narrativa percebemos como a realidade se estabelece. José Fernandes (1990:34) diz que “a linguagem assume dois papéis inusitados: transformar a realidade em símbolo e ultrapassar os seus próprios limites e o da realidade, ou representar o caos existencial das personagens” e defende a idéia da linguagem do absurdo que é fundada nas limitações da condição humana e nasce da necessidade do homem, sendo possível sob a óptica do imaginário. Essa idéia pode ser percebida quando Piano, necessitando da enxada, vê num galho verde, frágil, o instrumento tão desejado e utiliza dele para iniciar a plantação que na verdade continua porque seu corpo passa a ser o instrumento.

            Outra idéia de linguagem, também apresentada por José Fernandes, é a caótica, em que ocorre a manifestação do caos existencial:

“A comprovação da negatividade do ser encontra-se na linguagem caótica, enquanto manifestação do caos existencial, e, sobretudo, na inominação das personagens, fato comum na ficção contemporânea, pois parodiando Platão, quando não se sabe o nome, não se sabe também o ser e a essência.” (FERNANDES, 1990:38)

            Essa linguagem caótica está presente na figura de Bobo, o filho surdo-mudo de Piano, que não tem nome e é tratado como um animal:

“O mentecapto roncava, revirando-se sobre os trapos de baixeiro suarentos, fedendo a carniça de pisaduras, estendidos no chão e que lhe serviam de cama. Piano empurrou ele com o pé. O bicho levantou-se zonzo, cai aqui, cai acolá, aos roncos, feito um porco magro; perto da fornalha, à luz escassa das brasas meio mortas, Piano lhe fez acenos até que o animal se dispôs a sair para fora do rancho.” (ÉLIS, 1979:45)

            Nádia Battella Glotib (1984:41) caracteriza esse tipo de linguagem como grotesca. E a representação do grotesco está presente não só na figura de Bobo, como também na de Olaia, a mulher de Piano, paralítica das pernas desde o parto do filho Bobo, ficava sempre encostada na fornalha e fungando, sua figura também é animalizada. E o próprio Piano representa o grotesco, quando está desfigurado, após a surra dada pelos soldados que o acusam de haver tentado fugir.

            A linguagem que prevalece na obra é a sociológica, mostra uma realidade triste que assusta, mas ao mesmo tempo faz uma crítica ao abuso de poder por parte dos latifundiários, e ao preconceito da sociedade que vê a diferença como algo inaceitável. José Fernandes afirma que:

 “(...) na narrativa sociológica a crueldade dos acontecimentos fere, choca, ás vezes, estarrece, porque explicita a realidade do dia a dia que, por motivos vários, tende a ser encoberta. Sua meta é a busca do humano. (...) o procura no exterior, nas relações do homem com a sociedade.” (FERNANDES, 1990:40)

            A crueldade, a indignação e indiferença da sociedade com aqueles que não seguem o padrão estabelecido por esta é mostrada de forma explícita no conto. Bernardo Élis com sua narrativa sociológica, critica essa postura da sociedade no cenário goiano.

            Os insucessos de Piano na busca pela enxada e ninguém sendo capaz de ajudá-lo. A desfiguração do seu corpo que começa pela surra dos soldados e segue quando ele utiliza a si próprio como enxada para cavar e plantar o arroz são mostras da maldade, da perversidade do povo. A desfiguração do homem era tamanha que um dos soldados vomita ao ver aquele trapo de carne humana trabalhando, mas nem isso é capaz de sensibilizá-los, que cruéis matam o lavrador, seguindo ordens da crueldade maior do Capitão Elpídio.

            A crítica contra o preconceito da sociedade continua na última parte do conto. Após a morte de Piano, o autor nos apresenta um novo cenário, a festa do Divino. Nessa relação contrastiva morte-festa, novas personagens surgem na história e todos comemoram até que a presença de Olaia e Bobo, que estão a pedir esmolas, sem sucesso, pois ninguém foi caridoso, incomoda-os. As crianças xingam, jogam pedras e os adultos nada fazem para impedir, senão olhar com indiferença, pois querem eliminar o estranho, o diferente, o desfigurado do meio em que vivem. E finalizando com o que foi dito por Nádia Battella Gotlib (1984:45) “o fio do enredo transforma-se, mediante o desfecho final, num projeto assassino e que deixa impune o criminoso.”

Autora:

¹pós-graduanda em Lingüística Aplicada, na Funorte – Montes Claros – MG. jac.ribeiro@bol.com.br

Referências bibliográficas        

CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. In: Ciência e Cultura. São Paulo, v.24, n°9. p.803-809, set.1972.

________.Literatura e sociedade: estudos de teoria e história literária. São Paulo: Nacional, 1973.

ÉLIS, Bernardo. Veranico de janeiro. 4ª ed. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1979.

GOTLIB, Nádia Battella. Cavando(Uma análise de “A enxada”, de Bernardo Élis). O Eixo e a Roda. Belo Horizonte, n°2, p.33-51, jun.1984.

O conto brasileiro hoje. In: Seminários de literatura brasileira: ensaios. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1990. p.15-51.