REVISTA DA UFG - Tema BRASIL RURAL
Órgão de divulgação da Universidade Federal de Goiás - Ano VII, No. 1, junho de 2005

LINHARES, A. A. C. - Linguagem e identidade cultural caipira no município de Mossâmedes: por uma nova concepção acerca da linguagem caipira. Revista da UFG, Vol. 7, No. 01, junho 2004 on line (www.proec.ufg.br)

LINGUAGEM E IDENTIDADE CULTURAL CAIPIRA NO MUNICÍPIO DE MOSSÂMEDES: POR UMA NOVA CONCEPÇÃO ACERCA DA LINGUAGEM CAIPIRA1
Andrey Aparecido Caetano Linhares1
   

RESUMO: Há muito tempo que a educação oficial – em outros termos, regulamentada pelos órgãos do Estado – privilegia a cultura erudita, em detrimento da cultura popular. Tal postura contribui, de certa forma, para que muitos costumes, tradições e saberes consuetudinários sejam, invariavelmente, ignorados como formas autênticas e válidas de manifestações culturais. Este artigo trata da linguagem caipira – que é uma dessas manifestações culturais preteridas pelas instituições oficiais de ensino –  e visa contrapor-se à concepção errônea e preconceituosa acerca dessa linguagem, bem como ressaltar a importância da mesma como um elemento marcante da identidade cultural caipira e, por extensão, como um valioso patrimônio da nossa cultura regional.
Palavras-chave: linguagem; cultura; identidade caipira.

Resultante da miscigenação entre os colonos portugueses, índios e  alguns negros que a eles se juntaram, o caipira emerge na região Sudeste do Brasil; primordialmente, no atual Estado de São Paulo, de onde se expande para o Centro-Oeste através das bandeiras. Após a derrocada da mineração, no final do século XVIII, as populações que se concentravam nas regiões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso se dispersam e retomam o modo de vida rústico da antiga população paulista, compondo a cultura caipira (RIBEIRO, 1995).

Em essência, ressalvando as peculiaridades históricas locais, foi isso que ocorreu no município de Mossâmedes.2 A história do município tem início no ano de 1755 com o nome de Aldeia de São José; era, na realidade, um aldeamento para abrigar alguns grupos indígenas, mas teve breve duração. Porém, no ano de 1774, fora reconstruído  pelo então governador da capitania de Goiás, D. José de Almeida Vasconcelos Soveral de Carvalho, quando passa a chamar-se Aldeia de São José de Mossâmedes. Entre os vários grupos indígenas que passaram pelo aldeamento estão os Akroá, Karijó, Naudez, Javaé, Karajá e Kayapó. Todavia, em São José de Mossâmedes, boa parte dos índios nunca se habituou com o modo de vida destinado a eles. Houve várias deserções e mortandades e, em função disso, por várias vezes o aldeamento entrou em decadência, até ser completamente abandonado. Das ruínas daquele que fora um dos maiores e melhor construído aldeamento em Goiás, emerge o arraial de Mossâmedes; com a deserção e mortandade das nações que um dia viveram ali, por volta de 1780  foram sendo agregadas outras pessoas no aldeamento. Eram pessoas da própria região, bastante pobres e que encontraram, no aldeamento, moradia de graça e suprimentos a custos satisfatórios. (CUNHA, 2004; SAINT-HILAIRE, 1944; CHAIM, 1974;).

A despeito da proximidade com  a Cidade de Goiás, em Mossâmedes não se encontrou ouro como na antiga capital do Estado. Não obstante, após a derrocada da economia aurífera, no fim do século XVIII, parte dos habitantes de Mossâmedes se dispersou pelas grandes fazendas da região, aonde, na situação de agregados, trabalhavam na lida de gado e na formação de roça de toco3. Havia uma prática bastante comum que era a doação temporária de terras  para que os camponeses formassem roças desde que, após dois ou três anos, as devolvessem na forma de pastagem para criação de gado (BRANDÃO,1981). É possível dizer que, a partir desse momento, a cultura caipira começa a se desenvolver na zona rural de Mossâmedes. Atualmente, com a expansão do capitalismo para a zona rural,  muitas coisas mudaram. Como lembra Candido (1998) [1964], a economia de mercado criou novas necessidades; algumas delas foram facultativas, podendo o caipira adaptar-se ou não; porém, outras foram imperativas, não deixando ao caipira possibilidades para escolha, o que alterou paulatinamente sua cultura.

Não obstante, a despeito da expansão capitalista em direção ao meio rural e das conseqüentes transformações impostas por ele, a cultura caipira sobrevive bravamente. Uma prova empírica disso é a linguagem bastante peculiar. Entre os várias elementos que fazem parte da cultura caipira, a linguagem é, seguramente, um dos mais marcantes na identificação do caipira como tal. Fluente e objetiva, muitas palavras são abreviadas ou reduzidas pela metade, em alguns casos suprime-se a concordância de número e em outros casos pronuncia-se os fonemas  de maneira um tanto diferente do “padrão formal”. Essas são algumas das características que singularizam o falar caipira. Têm-se, abaixo, algumas entrevistas em que pessoas, da zona rural do  município de Mossâmedes, falam de seu cotidiano e de suas principais atividades de lazer :

“O que eu faço no meu dia’dia é levantá cedo, tirá leite; levanto de madrugada (tem essa vantage!) cedo nóis já sortô as vaca, né. E o serviço q’eu faço mais pesado é zelá do meu gado; eu num güento mexê com enxada, num güento nem amolá uma foice, andá longe eu num güento; eu sofro da coluna, né. Minha vida aqui na roça é essa”. ( Francisco Gomes dos Santos, conhecido como Chiquim do Zé Pedro).
“Na hora q’eu levanto, lavo o rosto, tomo café, depois trato de porco, vô no curral tirá leite, depois eu bebo leite, depois eu vô pegá cavalo (mais o que?); depois eu vô cortá cana, capim, fazê ração, tratá do gado (...). Se eu tô aqui hoje desde cedo, un’hora dessa já tinha cabado tudo. Agora, un’hora dessa é hora d’eu tirá uma forguinha; aí depois, de tarde começa de novo, quando dá quato hora começa o batuto traveiz; aí eu vô oiá  uma vaca, oiá roça, retocá uma cerca, né; daí, vai até escurece”. (Geobaldo Prachedes)
“Levanto, faço café, arrumo café da manhã, águo a horta, lavo vasia, faço o serviço da parte da manhã, faço o almoço. Na parte da tarde eu tô torrano muito porvilho (esse mêis tá apertado!); faço janta na parte da tarde e é o dia intero esse serviço”. (Divina Inácio da Silva Cruz).
“Bom, aqui sempre nos dumingo, eu vô na casa de uma vizinha que tem aqui perto; lá, às veiz tá passano um filme assim q’eu interesso, eu vô assistí junto com as menina; e também uma veiz por ano  nóis vai no Rio Vermelho, vai toda minha família, e lá é onde nóis diverte mais. E às veiz tem uma festa na igreja, a gente vai, passa o dia todo na reunião da mocidade, batismo, alguma coisa assim”. (Léa Rodrigues da Silva Oliveira).
“Aqui nóis pesca; nóis pesca traíra alí na Fartura. Passiá, nóis vamo sempre lá em Mossâmede na casa da minha mãe, da sogra; de vez em quando, no final de semana, vamo na casa do vizim bebê um cervejinha, assá carne. É esse tipo o lazer nosso”. (Jorcelino Pereira da Silva)4

Longe de ser uma forma “errada” do caipira fazer uso das palavras, tal linguagem constitui um dialeto que, segundo Amadeu Amaral (1981) [1920], forjou-se a partir de elementos do tupi, da influência de outras línguas, entre as quais, a africana e a castelhana, das criações que  emergiram no próprio meio caipira e, fundamentalmente, do português arcaico dos séculos XV e XVI; segundo Amaral,

“Lendo-se certos documentos vernáculos dos fins do século XV e de princípios e meados do século XVI, fica-se impressionado  pelo ar de semelhança da respectiva linguagem com a dos nossos roceiros e com a linguagem tradicional dos paulistas de ‘boa família’, que não é senão o mesmo dialeto um pouco mais polido” (ibid: 56).

Como um dialeto, a linguagem caipira adquire certa autonomia em relação à  língua portuguesa e, dessa maneira, passa a ter suas razões próprias, de acordo com determinados aspectos geográficos, sociais e culturais. A seguir, têm-se exemplos – retirados das falas transcritas acima – de alguns dos vários fenômenos que particularizam o dialeto caipira:

1.   Apócope5 -  “O que eu faço no meu dia’dia é levantá cedo, tirá leite; levanto de madrugada, tem essa vantage (...)”.  “(...) nóis vamo sempre lá em Mossâmede (...)”. No caso, foram apocopados o r, em levantar e tirar; o m, em vantagem; e o s, em Mossâmedes.

2.   Síncope6 -  “(...) faço janta na parte da tarde e é o dia intero esse serviço.” No caso, houve supressão de fonema intermediário;  aqui, a síncope foi caracterizada suprimindo-se o fonema correspondente à vogal i.

3.   Aférese7 / sinalefa8 -  “(...) eu num güento mexê com enxada (...)”.  “(...) quando dá quato hora começa o batuto traveiz (...)”. Nos casos, güento e traveiz, a aférese ocorre, respectivamente, com as supressões da letra a e  do ditongo ou no início dos vocábulos;  no último caso, ocorre ainda a  junção da sílaba tra ao vocábulo vez, o que indica não somente aférese, mas também sinalefa.

4.   Elisão9 / sinalefa  -  “E o serviço q’eu faço mais pesado é zelá do meu gado (...)”.  Até un’hora dessa eu faço tudo isso. Agora, un’hora dessa, é hora d’eu tirá uma forguinha (...).” Nos casos, q’eu, un’hora, e d’eu, ocorrem, respectivamente, elisão das vogais átonas ue, a, e e, havendo, em seguida, a conseqüente junção dos termos ou sinalefa.

5.   omissão da concordância de número -  “(...) cedo nóis já sortô as vaca, né.”  “(...) e lá é onde nóis diverte mais (...)”.

6.    substituição de fonemas -  “(...)num güento nem amolá uma foice (...)”.  “(...) é hora d’eu tirá uma forguinha (...)”.   “Bom, aqui sempre nos dumingo, eu vô na casa de uma vizinha que tem aqui perto (...)”.  “(...) Passiá, nóis vamo sempre lá em Mossâmede (...)”. Foram substituídos, portanto, os respectivos fonemas: ão por uml por ro por u e, finalmente, é por i.

7.   omissão de fonemas -  “Na parte da tarde eu tô torrano muito porvilho (...)”. “(...) às vez tá passano um filme assim q’eu interesso (...)”.  “(...) arrumo café da manhã, águo a horta, lavo vasia (...)”.  Nos dois primeiros casos foram suprimidos o fonema correspondente à letra d, já no último caso foi suprimido o fonema correspondente ao dígrafo lh.

8.   acréscimo de fonema por ditongação - “(...) lá, às veiz tá passano um filme assim q’eu interesso(...)”. “(...) e lá é onde nóis diverte mais (...)”. Nos dois casos, as terminações vocálicas seguidas de z ou s foram acrescidas pelo fonema correspondente à letra i, resultando, assim, em ditongos.

A supressão do r é, provavelmente, uma influência  dos africanos, que, segundo Gilberto Freyre (2001), teriam tirado o ranço da nossa língua ao omitirem o fonema correspondente ao r no final de verbos no infinitivo. De acordo com Amaral (1981), o dígrafo lh é um fonema que originalmente não existia no dialeto caipira, o que, provavelmente, explica a sua omissão. Da mesma forma não existia no nheegatu  - língua de base tupi, predominante no Brasil colonial  e que contribuiu para a formação do dialeto caipira -  os fonemas representados pelas letras  l e s; isso poderia estar relacionado, por exemplo, com a substituição do l pelo r e com o apocopamento do s, tal como já foi exemplificado acima. Entretanto tais conjeturas podem estar equivocadas. A substituição do l pelo r  - tecnicamente chamada de rotacismo -  é um fenômeno que ocorreu com bastante freqüência no processo pelo qual a língua portuguesa diferenciou-se do latim (Bagno, 2001). Além disso, se a omissão do s no final dos vocábulos tem algo a ver com a sua inexistência no nheegatu, tal omissão haveria de ocorrer também no início e meio dos vocábulos. Entretanto, não é possível discutir os porquês de cada um desses fenômenos, pois tal discussão excederia aos objetivos primordiais deste artigo.

De acordo com Marcos Bagno (2001), do ponto de vista da lingüistica não é possível dizer que as formas em destaque são incorretas. Para ele, o problema é que existe uma redução da língua (que é um fenômeno amplo e  extremamente rico) à gramática normativa (que seria apenas fundamentos específicos de aplicação da língua conforme um determinado padrão, entre vários outros possíveis e diferentes, mas nem por isso errôneos). Sendo assim, não seria possível dizer que o caipira não fala corretamente a língua portuguesa; pelo contrário, segundo Bagno, qualquer pessoa, mesmo que nunca tenha aprendido a ler e escrever, domina plenamente sua língua materna. Para  ele, mesmo do ponto de vista da gramática, muitos casos que são tidos como erros e desvios são questionáveis, pois todos eles têm um padrão, uma certa coerência, e uma explicação científica.

Não obstante, tal linguagem continua sendo ignorada como  uma manifestação autêntica da cultura caipira e, por conseguinte, da nossa cultura regional; nos momentos em que aparece nos meios de comunicação, é apresentada de forma caricatural pelos humoristas que fazem personagens caipira, o que só reforça a visão preconceituosa acerca dessa linguagem. Mas a questão não vai ser resolvida – unicamente, embora seja algo significativo – através da mudança de atitude de alguns humoristas ou de alguns gramáticos; na realidade, o problema é mais abrangente; como foi dito no início, os órgãos educacionais do Estado sempre tiveram a cultura erudita como parâmetro. No momento em que a cultura popular  tiver também o seu espaço dentro dessas instituições,  seguramente  essa situação deverá mudar.

Já existe um exemplo alentador nesse sentido; em 1997, a Secretaria Municipal de Educação de Carmo do Rio Claro-MG implementou o projeto “Vida Rural”, que oficializou o caipirês como matéria da grade curricular das escolas do município; a disciplina aborda linguagem, culinária, artesanato, crendices, medicina popular e música (NEPOMUCENO, 1999). Quando exemplos semelhantes multiplicarem-se, quem sabe a linguagem caipira possa ser melhor compreendida e valorizada, pois, mais do que um ato comunicativo, tal linguagem constitui um dos aspectos mais marcantes da identidade cultural caipira e, como tal, expressa não apenas idéias, mas um modo de ser. Acreditar que existe algo errado com essa linguagem é , ao mesmo tempo, diminuir o valor de toda cultura caipira.

Autor

1 Bacharel em Ciências Sociais e mestrando em Sociologia pela Universidade Federal de Goiás. Contato: andreysoci@yahoo.com.br


Referências bibliográficas

AMARAL, Amadeu. O dialeto caipira. São Paulo: Hucitec; Brasília: INL-MEC, 1981 [1920].

BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico: o que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2001.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Plantar, colher, comer: um estudo sobre o campesinato goiano. Rio de Janeiro: Graal, 1981.

CANDIDO, Antônio. Os parceiros do Rio Bonito: estudo sobre o caipira paulista e as transformações de seus meios de vida. São Paulo: Duas Cidades, 1998.

CHAIM, Marivone Matos. Os aldeamentos indígenas na Capitania de Goiás: sua importância na política de povoamento (1749 - 1811). Goiânia: Oriente, 1974.

CUNHA, Lincoln Ferreira da. Retrospectiva histórico-social de Mossâmedes. Goiânia: Bandeirantes, 2004.

FREYRE, Gilberto. Casa grande e senzala: a formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. Rio de Janeiro: Record, 2001.

NEPOMUCENO, Rosa. Música caipira: da roça ao rodeio. São Paulo: editora 34, 1999.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem às nascentes do Rio São Francisco e pela província de Goiás. São Paulo: Nacional,1944.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil.  São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

Notas

1 Este artigo é resultado de uma pesquisa sobre A identidade cultural caipira no município de Mossâmedes - GO, a qual tem como finalidade a produção do texto dissertativo e, por conseguinte, a conclusão do mestrado em sociologia pela Universidade Federal de Goiás.  

2 Mossâmedes dista 145 Km de Goiânia, tendo como principal via de acesso a GO - 070;  atualmente sua população é  de 5.798 habitantes, sendo 3.595 na zona urbana e 2.203 na zona rural (Fonte - IBGE).

3 Essa roça é feita com a derrubada de uma mata ou restinga, sem que se faça a aragem da terra com trator e, por isso,  alguns tocos das árvores cortadas permanecem  na terra, daí o nome roça de toco.

4 Entrevistas concedidas em dezembro de 2004, na ocasião do trabalho de campo realizado na zona rural do município de Mossâmedes.

5 Apócope é a supressão de um fonema ou sílaba quaisquer no final de um vocábulo.

6  Síncope é a supressão de um ou mais fonemas quaisquer no meio de um vocábulo.

7 Aférese é a supressão de um ou mais fonemas quaisquer no início de um vocábulo.

8 Sinalefa é a junção de duas sílabas ou vocábulos em um só.

9 Elisão é a supressão de uma ou mais vogais átonas do final de um vocábulo, quando, logo em seguida, há outro vocábulo iniciado por uma vogal tônica.