REVISTA DA UFG - Tema ENSINO SUPERIOR
Órgão de divulgação da Universidade Federal de Goiás - Ano VII, No. 2, dezembro de 2005

 

O memorial como instrumento reflexivo: um relato de experiência acadêmico-pedagógica
Alcides Leão Santos Júnior1, Lenina Lopes Soares Silva2
   

Resumo: Relata-se uma experiência acadêmico-pedagógica desenvolvida no Seminário Temático: “Sociedade e Educação”.  Objetiva-se com esse relato, promover a discussão em torno do memorial enquanto contribuição para reflexões sobre Sociedade e Educação, por levantar inúmeras possibilidades temáticas sobre questões sociais cotidianas ligadas à educação, trazendo ao lume situações sociais e educativas. Recorreu-se, para isso, a referenciais teórico-metodológicos que tratam da Ciência e da Universidade, de Memórias e Narrativas Autobiográficas, tendo como material empírico à vida social e escolar de cada participante. Visualiza-se uma cartografia da Educação Básica brasileira das últimas décadas, pois os memoriais apresentados trazem experiências educativas de quase todo o território brasileiro.
Palavras-chave: memorial; formação docente; sociedade.

Introdução

Procurar inserir a educação numa discussão ampla sobre a sociedade é sempre preocupação da maioria dos professores que lidam nas Ciências Sociais e Humanas. Buscar alternativas para que essas reflexões articulem-se na escrita de textos científicos e nas discussões promovidas na vida acadêmica, também. Diz-se, pois, que refletir de forma articulada sobre diferentes dimensões da vida em sociedade é uma das premissas básicas das atividades desenvolvidas pelo programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais – PPGCS, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN. O referido programa, desde 1980, vem promovendo discussões acerca da educação, da sociedade, da cultura e da promoção da ciência em torno dessas temáticas em suas atividades científicas e culturais. Dentre elas estão inseridos os Seminários Temáticos que visam à implementação sistemática de reflexões sobre questões sociais emergentes nas áreas de atuação profissional de mestrandos e doutorandos e nas análises de pesquisas em desenvolvimento no PPGCS.

Postula-se, dessa maneira, que o processo de conhecimento nas atividades desenvolvidas, no PPGCS, vem sendo analisado no sentido mais amplo da condição social e humana dos sujeitos envolvidos na construção do processo científico, sobre os desafios da ciência contemporânea, dos seus problemas éticos e sociais e das responsabilidades da Universidade na produção de conhecimentos. Nesse sentido, os Seminários Temáticos são núcleos reflexivos sobre questões sociais e científicas, enquadrando-se como relevantes por permitir a circularidade de conhecimentos nas mais diversas áreas do saber científico e da tradição. Interconecta-se o homem, a sociedade, a educação, a cultura, enfim, a vida humana e a ciência em seu locus dialogal, o que promove uma ecologia de saberes como propõe Santos ao conceituar ecologia de saberes, afirmando tratar-se de “[...] conjuntos de práticas que promovem uma nova convivência activa de saberes no pressuposto que todos eles, incluindo os saberes científicos, se podem enriquecer nesse diálogo (SANTOS, 2004: 77)”.

Relata-se no presente estudo, uma experiência acadêmico-pedagógica desenvolvida no PPGCS-UFRN, no Seminário Temático “Sociedade e Educação”, coordenado pela Dra. Vânia de Vasconcelos Gico1, no semestre letivo de 2004.1. Esse Seminário foi realizado com a perspectiva de mostrar como pode ser desenvolvida uma forma de abordagem dialógica no processo pedagógico, cujo enfoque pauta-se num conhecimento social que ocorre de maneira não linear, bifurcando-se entre os sujeitos que dele se apropriam de diversas formas. Tem como enfoque a sistemática de elaboração de um Memorial de Formação Escolar e Social utilizada como processo avaliativo do referido Seminário no tocante tanto à orientação da estruturação lógica quanto à fundamentação teórica e metodológica.

Como instrumento pedagógico, o Memorial tinha como objetivo contribuir para suscitar reflexões sobre Sociedade e Educação, oferecendo aos sujeitos participantes a oportunidade de pensar sobre si mesmos no conjunto de relações que se estabelecem no processo de formação social e educacional. Sendo assim, tem-se a pretensão de compartilhar associações, articulações, descobertas, reflexões e possibilidades que foram tergiversadas durante o Seminário e que permitiram pensar no Memorial de Formação como um instrumento pedagógico promotor de demandas reflexivas frente ao vivido e a atualidade, inseridas no contexto social passado e presente, num movimento que envolve ações estruturais políticas, estatais e institucionais, com atuação sobre os sujeitos de forma recursiva na vida em sociedade. Um movimento que muitas vezes impede os sujeitos de pensarem sobre suas próprias condições sociais de vida e que estas condições não são apenas suas, mas de todo um conjunto social. Embora, se reconheça que há particularidades que são próprias de cada sujeito, há nele um sujeito, coletivizado pelo processo de socialização, como nos diz Severino: “A história particular de cada um de nós se entretece numa história mais envolvente da nossa coletividade (SEVERINO, 2001:   175)”.

 Mas, como se configura um Memorial de Formação Escolar e Social? Configura-se como instrumento possibilitador de reflexões sociais, educativas e culturais no qual um sujeito pensante re-elabora e re-situa sua vida em relação à sociedade e outros sujeitos. Nesse direcionamento, Morin, ao refletir sobre a ética do gênero humano, enfatiza que: “[...] individuo/sociedade/espécie são não apenas inseparáveis, mas co-produtores um do outro. Cada um destes termos é, ao mesmo tempo, meio e fim dos outros. Não se pode absolutizar nenhum deles e fazer um só, o fim supremo da tríade (MORIN, 2001: 105)”.

Nesse pensamento, as bases estruturais bio/psico/sociais do sujeito são colocadas como constituintes desse mesmo sujeito na transmissão de vivências e experiências do indivíduo na sociedade e em sua espécie. Dessa interlocução, observa-se que o Memorial poderia ser definido como um mapa representativo da vida escolar, social e cultural do sujeito, portador de sua história, de sua memória e da memória de sua sociedade, mapa que denota a realidade sócio-histórica e cultural, e o itinerário vivido, encontrando-se na memória, fica tatuado no sujeito. Trata-se, portanto, de uma autobiografia situada nos contextos citados, cuja exposição escrita reflete de forma narrativa a vida e as experiências do autor. Severino reafirma esse pensamento ao dizer:

O Memorial constitui, pois, uma autobiografia configurando-se como uma narrativa simultaneamente histórica e reflexiva. Deve então ser composto sob a forma de um relato histórico, analítico e critico, que dê conta dos fatos e acontecimentos que constituíram  a trajetória  acadêmico-profissional de seu autor, de tal modo que o leitor possa ter uma informação completa e precisa do itinerário percorrido (SEVERINO, 2001: 175)

Seria, assim, o Memorial uma cartografia de lembranças ou da própria memória do sujeito? Um mapeamento da vida interior capaz de fazer surgir situações não pensadas ou lembradas corriqueiramente? Uma cartografia de recordações significadas subjetivamente com toda carga de elementos emocionais, de sentimentos, de dor, de alegria, de sonhos, de esperanças, vividos por um sujeito num determinado tempo e lugar? Uma cartografia já demarcada conjunturalmente pela política, pela sociedade, pela escola e pela família alicerçada pelo tempo e construída culturalmente? Qual seria o lugar da memória da educação dos sujeitos comuns na sociedade do esquecimento? Quais seriam as contribuições do memorial e qual a importância dele para a pesquisa em Educação e em Ciências Sociais? Essas foram algumas das questões levantadas pelo grupo de participantes do Seminário.

Objetiva-se, assim, promover a discussão em torno do Memorial de Formação Escolar e Social enquanto contribuição para reflexões sobre Sociedade e Educação por trazer inúmeras possibilidades temáticas sobre questões sociais cotidianas ligadas à educação, trazendo a lume situações sociais e educativas inéditas nos meios acadêmicos.

A ementa do Seminário Temático previa: “A análise das relações entre sociedade e educação a partir de aportes teóricos das Ciências Sociais” com o objetivo de “Discutir e aprofundar temas requeridos pelos projetos de pesquisa dos mestrandos e doutorandos”. O conteúdo programático foi distribuído em três Unidades Didáticas e constava dos procedimentos metodológicos do programa aulas expositivas, palestras, mesas redondas, discussões temáticas, exibição de vídeos e seminários. Para os procedimentos de avaliação previa-se que cada aluno elaboraria seu Memorial de Formação Social e Escolar. Além dessas informações, consta do Programa do Seminário as referências bibliográficas que serão incluídas nas referências desse texto.

Relato dos procedimentos teórico-metodológicos

O Seminário desenvolveu-se numa perspectiva teórica inserida no pensamento complexo, enfocando-se o conhecimento e a ciência como construtos sociais e humanos, tecido em conjunto com a sociedade e a educação e inseridos num contexto cultural. Assim, pode-se dizer que essa tessitura pedagógica ocorria de forma transdisciplinar e multidimensional, por fazer nascer o diálogo entre os participantes das mais diferentes áreas do conhecimento e de vários domínios do saber.

Nessa condução didática, visualiza-se que a metodologia incorporou procedimentos técnicos de várias disciplinas, incorporando, também, o entendimento de que a singularidade de uma disciplina não se perde ao ser incorporada por outra ou ser traduzida como elemento de aprendizagem. Durante o Seminário, pode-se vivenciar momentos que demarcaram essa interpretação, entre os quais está a circulação, entre os participantes, de um livro de poemas de João Cabral de Melo Neto, Educação pela pedra e depois (1997). Cada um dos participantes lia o livro e escolhia um poema para apresentar ao grupo, comentando-o e fazendo suas interpretações sobre o poema escolhido e suas articulações com o tema. Desse exemplo prático, reiteramos que o poema não perdeu sua singularidade e nem o seu lugar na área de Letras e Lingüística ao se fundir organicamente com as Ciências Sociais, ligando-se à temática em estudo tanto pela criatividade do poema, como pela interpretação dos leitores e dos ouvintes na exposição de suas impressões e sentimentos despertados pela leitura.

Merece destaque, também, os procedimentos utilizados para a dinamização das leituras recomendadas, tendo em vista que o seminário não tinha apenas um texto básico, mas sim, vários textos2, sublinhando-se que a intenção era a de enriquecer o diálogo e promover a troca de experiências e saberes entre os participantes. Para tanto, eram mobilizados recursos de leitura e produção de texto. Semanalmente, os participantes apresentavam um resumo das leituras realizadas nos moldes da Associação Brasileira de Normas Técnicas3 e, ao final de cada Unidade Didática, uma síntese das leituras da Unidade de acordo com o tema discutido e a bibliografia como parte da avaliação individual.

Na Unidade Didática I, quando o tema girava em torno da Crise na Educação destacou-se, dentre as outras, as idéias contidas no artigo de Germano (1999), A Transformação da Questão Social e a Educação, no qual são postas as questões emergenciais decorrentes da situação socioeconômica pela qual passa o mundo globalizado, em especial nos países semiperiféricos, colocando a educação como o foco de discussão em suas análises. Partindo de suas idéias, discute-se no Seminário a Educação como um processo complexo, humano, social e imanente com valor em si; processo inerente à condição humana e ao processo de sociabilidade e de sobrevivência coletiva. Processo que vem sendo desvirtuado no contexto global nas últimas décadas, pois o mundo vivido atualmente é um mundo dominado pela mercadorização de tudo que poderá ser convertido em lucro; o mercado é o modelo e a ideologia dominante.

Na Unidade Didática II, na qual o tema básico foi Universidade: invenção e promessas, o fio condutor foram os estudos de Verger e Charle (1996) e os de Trindade (1999) sobre a história e a constituição das universidades o que possibilitou compreender que a Universidade foi inventada de uma forma inacabada. Forma que vem se reinventando ao longo da formação sócio-histórica. Depreendeu-se das leituras que a Universidade vive em constante processo de ebulição, pois foi criada com a responsabilidade de pensar sobre si mesma, seus criadores e criação e também, sobre o seu contexto. Desse modo, é impossível reformá-la sem “reformar os pensamentos” como nos ensina Morin (2001).

O saber e o fazer na Universidade são alocados da realidade social de maneira consciente ou não, a eles integrando-se diferentes visões de mundo e diferentes manifestações culturais; por isso é uma instituição plural. Por essas questões, é necessário promover o diálogo na Universidade como propõe Almeida (2002). Diálogo entre diferentes sujeitos pensantes, tendo como premissa a condição humana na Terra, a responsabilidade com a natureza e o compromisso com uma ciência mais humana e comprometida com a cultura e os valores sociais necessários à humanidade.

Na Unidade Didática III, cuja temática destacava a Educação contra a barbárie, foi necessário contextualizar acontecimentos históricos marcantes tanto para a sociedade quanto para a educação, alocando-se estruturas do pensamento predominante em cada contexto. Assim sendo, Adorno (1995) foi o autor mais discutido, por trazer elementos essenciais para a compreensão dos fatos que deixaram as marcas mais cruéis em toda a história do processo civilizatório.

No encontro no qual se debateu o tema, chegou-se a algumas considerações, dentre elas: promover a educação contra a barbárie no seio das sociedades capitalistas não é tarefa fácil, tendo em vista que, ao longo da história, a barbárie instalou-se e promoveu seus estragos de forma lenta ou mesmo abruptamente, sem que os sujeitos afetados por ela conseguissem livrar-se de seus horrores. Compreendeu-se que a barbárie tem sempre um mascaramento político, disseminando como objetivo de luta e luta de muitos, contra algo que embota e camufla seus verdadeiros interesses. Geralmente, essa camuflagem é de difícil percepção pela falta de consciência de pertencimento social e humano dos sujeitos, o que provoca o envolvimento de coletividades inteiras em atos extremamente bárbaros. Sendo assim, a educação pode ter um papel importante contra a barbárie.

Concomitante às atividades ligadas ao conteúdo programático, desenvolveu-se a orientação para a elaboração do memorial de Formação Escolar e Social. A sistemática de orientação constituiu-se, inicialmente, em orientações de leituras com a perspectiva de se discutir o processo de formação social e educacional de cada um e de todos os participantes, seguindo as mesmas orientações das demais leituras. Dessa forma, recorreu-se a referenciais teórico-metodológicos que tratam de memórias e de narrativas autobiográficas de diferentes culturas para que se pudesse contextualizar, nas leituras, os níveis e modalidades de ensino, com a vida social e o momento político vivido pelos autores, na medida em que se discutiam os temas de cada Unidade Didática. Entre essas leituras encontravam-se:

a)     Nóvoa (2000): num livro por ele organizado, cujo enfoque são histórias de vida de professores em perspectiva autobiográfica. Verificou-se que os oito trabalhos apresentados no livro, procuram conferir às histórias de vida, a consistência e o rigor metodológico necessários à prática cientifica. Chama a atenção para os cuidados que se deve ter quando se constrói trabalhos com abordagens autobiográficas, para que estes não se fechem em fronteiras disciplinares, criando, assim, dificuldades de categorização nesses estudos. Sobre o que propõe que trabalhos desta natureza tenham por base os objetivos e as dimensões da própria abordagem autobiográfica. Trata, assim, de reflexões sobre trajetórias profissionais de professores através de histórias de vida como forma de abordagem para o conhecimento de processos educativos, portanto, importante como fundamentação metodológica para quem está em processo de elaboração de um Memorial.

b)     Pereira (2002): trata-se de um livro coordenado pela autora, no qual são os autores “memorialistas” da Escola Primária Portuguesa, alunos egressos que relatam vestígios de situações por eles vividas em processo de ensino e aprendizagem, relacionadas à aprendizagem da leitura e da escrita com os pais, os parentes, os professores particulares e em escolas primárias. Essa leitura possibilitou aos participantes fazerem reflexões sobre o significado e a compreensão do desenvolvimento do ensino primário em Portugal da época em que viveram os autores dos depoimentos, podendo-se remeter ao modelo de ensino no Brasil, dando aos depoentes uma conotação de testemunhas vivas.

c)      Hampâté Bá (2003): trata-se de uma obra autobiográfica na qual o autor reconstituiu sua vida educativa e social, e reconstruiu seu itinerário social trazendo elementos de sua cultura africana. Nesta, os momentos narrados trazem sempre embutido o valor da educação como imanente através do enfoque do processo de formação ética como algo construído nas relações socioculturais que se estabelecem entre os humanos, e, que se apresenta nos vestígios de sua memória educativa, desnudada no entrelaçamento das  relações por ele vividas e interpretadas. Assim, cada um foi construindo seu Memorial fundamentando-se nos estudos feitos, tendo como material empírico sua própria vida social e educativa, suas marcas, seus traumas, suas lembranças e reminiscências de um tempo passado que ia se fazendo presente, como o que ficou registrado na memória e poderia ser significado e interpretado, no locus, no espaço e no lugar vivido, a sociedade e suas inter-relações políticas, a escola e seu processo de ensino e aprendizagem, a família e o espaço cotidiano, agora retornando para serem elaborados de forma a tornarem-se compreensíveis através do processo de escrita e leitura.

 O encerramento do Seminário aconteceu no IV Fórum Temático: Sociedade e Educação, realizado em outubro de 2004, pelo PPGCS – UFRN, cujo objetivo, apresentado para os alunos,  previa:  construir uma ampla disseminação dos estudos a respeito da educação no cenário social brasileiro, incentivando novos estudos acerca da sociedade e da cultura, tanto nos aspectos da historia quanto na focalização de personalidades da educação.

Na abertura do referido Fórum foram palestrantes os professores:

1.      Dr. José Willington Germano, Professor do PPGCS – UFRN, que discorreu sobre A Transformação da Questão Social e a Educação.

2.      Dra. Marta Maria de Araújo: Professora do PPGE – UFRN, que discutiu sobre Cultura Moderna e Educação Brasileira.

3.      Dra Ana Maria Vale, professora da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, que apresentou O Legado Político pedagógico de Paulo Freire: saberes necessários à pratica educativa do século XXI.

No segundo dia, os participantes do Seminário apresentaram seus memoriais de Formação escolar e Social.

Resultados e Possibilidades

Durante a apresentação dos Memoriais, observou-se que eles são instrumentos pedagógicos que trazem inúmeras fontes de pesquisa, embora se reconheça que a forma autobiográfica narrativa carrega em si uma carga de subjetividade não encontrada em outros instrumentais pedagógicos. No entanto, é valido ressaltar que subjetividade e objetividade se não andam par e passo e são dictomizados na ação reflexiva, transformam-se em subjetivismo e objetivismo sobre o que nos orienta Freire:

Confundir subjetividade com subjetivismo, com psicologismo, e negar-lhe a importância que tem no processo de transformação do mundo, da historia, é cair num simplismo ingênuo. É admitir o impossível, um mundo sem homens, tal qual a outra ingenuidade, a do subjetivismo, que implica homens sem mundo. Não há um sem os outros, mas ambos em permanente integração (FREIRE, 1987: 37)

Nessa linha de pensamento, o que ficou evidenciado durante a apresentação é que os Memoriais são instrumentos pedagógicos reflexivos que:

a)     promovem a articulação entre vivências sociais e educativas no contexto em que ocorrem;

b)     dão re-significação ao espaço, ao tempo e ao lugar vividos, re-situando-os;

c)      permitem que se teçam interconexões entre as diferentes histórias de vida dos sujeitos em termos políticos, sociais, educacionais e familiares;

d)     fomentam reflexões sobre as condições materiais nas quais se produziram determinados processos educativos;

e)     denotam diferentes formas culturais de vida, de educação, de sociabilidade e de valores humanos;

f)        trazem à tona a vida real e concreta do cotidiano social e educativo, como foi experienciado, carregado de afetos, de marcas e de sentimentos;

g)     possibilitam que o sujeito se pense como parte integrante de uma história social que não é só sua, identificando-se com as demais histórias;

h)      enfim, incrementam a religação de saberes por demonstrarem diversas formas de ensinar e de aprender.

Como possibilidades, considera-se que o Memorial de Formação Escolar e Social, elaborado nos moldes de um trabalho acadêmico poderá:

a)     ampliar o acervo de trabalhos de pesquisas sobre Sociedade e Educação;

b)     contribuir com dados para a construção de uma cartografia da Educação Básica Brasileira das últimas décadas do século passado;

c)      disseminar as experiências sociais e educativas exitosas registradas nos Memoriais através de publicações em revistas, coletâneas de artigos, entre outras;

Assim sendo, os pensamentos e ações dos educadores possibilitam o prolongamento de nossa Memória e de nossa História da Educação.

 Autores

1Graduado em Pedagogia pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL), Especialista em Alfabetização: capacitação docente – uma visão multirreferencail pela UCSAL, Mestrando em Ciências Sociais na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), membro do Grupo de Estudos Boa-ventura e pesquisador da Base de Pesquisa Cultura, Política e Educação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN.  Contato: alcidesleao@hotmail.com

2Graduada em Pedagogia com habilitação em Orientação Educacional pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Especialista em Psicopedagogia pela Universidade Potiguar (UnP), Mestranda em Ciências Sociais na UFRN, membro do Grupo de Estudos Boa-ventura e pesquisadora da Base de Pesquisa Cultura, Política e Educação do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRN.   Contato: lanier@digi.com.br

Notas


[1] Professora e Pesquisadora Associada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

2 Conforme Referências.

3 ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÈCNICAS, NBR 6028: Informação e Documentação: resumo, apresentação, Rio de janeiro, 2003NBR – 6028.

 

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